quinta-feira, 2 de maio de 2013

"Eu tinha dezessete anos e era louca por um cara com quem trocava olhares, não mais que isso. Ele era o legítimo “muita areia pró meu caminhão” e jamais acreditei que pudesse vir a se interessar por mim, o que me deixava ainda mais apaixonada, claro. Mulher adora um amor impossível. Então chegou o dia do meu aniversário. No final da manhã eu estava em casa, contando os minutos para uma festa que daria à noite, quando a empregada apareceu com um cartão nas mãos, dizendo que o zelador o tinha encontrado embaixo da porta do prédio. Abri e fiquei azul, verde, laranja: era dele! Corri para o telefone e liguei para a minha melhor amiga. “Que trote bobo, você quase me mata de susto, pensa que não sei que foi você que escreveu o cartão?” Ela jurou por todos os santos que não. Liguei para outra amiga. “A letra é igual a sua, eu sei que foi você!” Não tinha sido. Liguei para outra: “Você acha que eu vou acreditar que um cara lindo que nunca me disse bom dia veio até aqui largar um cartão amoroso desses?” Ela me recomendou terapia. Bom, diante de tantas negativas, só me restou pensar: “Outra hora eu descubro quem é que está tirando uma comigo”. E esqueci o assunto. Semanas depois estava caminhando na rua quando encontrei o dito cujo. Ele resmungou um oi, eu devolvi outro oi, e então ele perguntou se eu havia recebido o cartão de aniversário. Minha pressão caiu, minhas pernas fraquejaram, eu só pensava: mas que idiota eu fui! O que iria responder? “Recebi, mas jamais passaria pela minha cabeça que um homem espetacular como você, que pode ter a mulher que escolher, fosse entrar numa papelaria, comprar um cartão, escrever um texto caprichado, depois descobrir meu endereço e então pegar o carro, ir até a minha rua, colocar o envelope embaixo da porta feito um ladrão, e aí voltar para casa e aguardar meu telefonema. Olhe bem pra mim, eu não mereço tanto empenho.” Respondi: “Que cartão?” Ele soltou um “deixa pra lá” e foi embora se sentindo o mais esnobado dos homens. E assim terminou uma linda história de amor que nunca começou. Anos depois nos encontramos casualmente e tivemos um rapidíssimo affair, mais aí já não éramos os mesmos, não havia clima, ficamos juntos apenas para ver como teria sido se. Vimos. E não escutamos sinos, não fomos flechados pelo Cupido. Cada um voltou para a sua vida e nunca mais tivemos notícia um do outro. Contei essa história para um amigo outro dia e ele comentou que conhecia outras mulheres assim. Epa, assim como? Ora, assim medrosa, desconfiada, temendo pagar micos diante da vulnerabilidade que toda paixão provoca. Ele estava certo. Era assim mesmo que eu me sentia aos dezessete anos: medrosa e incapaz de levar um grande amor adiante. Quando recebi o tal cartão, deveria ter ligado imediatamente para o meu príncipe encantado para agradecer e convidá-lo para a festa. E se ele tivesse dito: “Que cartão?” Eu responderia: “Deixa pra lá, mas venha à festa assim mesmo”. E então eu assumiria as conseqüências, não importa quais fossem. O nomezinho disso: vida. É sempre uma incógnita, portanto não vale a pena tentar fugir das decepções ou dos êxtases, eles nos assaltarão onde estivermos. Se você for uma garota boba como eu fui, acorde. Ninguém é muita areia pra ninguém. Pessoas aparentemente especiais se apaixonam por outras aparentemente banais e isso não é um trote, não é uma pegadinha, não é nada além do que é: um inesperado presente da vida, que todos nós merecemos."

Martha Medeiros
“Tudo o que é demais sufoca
Tudo o que é de menos desfoca.
Ninguém gosta de voltar para aquilo que não tem.
Ninguém gosta de adotar aquilo que já não vê.”

~ Quando eu era para ti.
“A noite, por mais bela, estrelada e guardada por uma lua imponente, já não pode apagar cicatrizes de uma manhã sem sol. Uns tantos não apagam marcas de outros muitos, é como funciona. E se eu estivesse por um fim hoje, qual seria o melhor jeito de arrebentar logo? Qual seria a melhor manhã entre nós?”
~ Camila Costa.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

São duas da manhã, vinte e quatro horas atrás eu estava aqui, no mesmo lugar, pensando as mesmas coisas sobre a mesma pessoa e querendo saber porque é tão difícil materializar uma ideia. Mas não uma ideia simples, um querer imediato. Se parece mais com um sonho. O fato é que eu não me reconheço nessa situação, inativo, mudo, enfadado. Não que eu seja a pessoa mais expressiva, mas nunca tive dificuldade em transmitir um pensamento, uma vontade, ou seja o que for. Pelo menos não tanto quanto agora. Eu me transformei na sua sombra querendo ficar ao seu lado. A maioria das frases que rabisco durante o dia ficam pela metade, não há como colocar fim no que não sei quando começou. Se começou. Se ainda existe. Se vai durar tempo suficiente para querer que não acabe. Eu não sei mais trazer para mim o que eu era, o que eu fui ficou contigo, e o que eu sou já não importa. Porque minhas mãos já não escrevem o que eu sinto, vejo, falo ou ouço; escrevem a dúvida que o seu olhar gerou quando me viu e se afastou. E nem esse jogo pobre de palavras arrancaria de você um passo. Eu repito que existem por aí outras pessoas, que o “não” eu já tinha e que o “sim” era a minha briga. Mas como eu queria ouvir você me desmentir. Já se passou uma hora e eu continuo achando que nada disso faz o menor sentido. No entanto, qual a melhor forma de explicar o que havia, quando isto só existia para mim? Eu verbalizo o passado para lembrar de esquecê-lo, e o sono me convence que a sua lembrança é uma mancha. Mas de você não me arrependo. Me arrependo de ter sido eu quando você fingiu ser minha.

 Mateus F.


Me diz o que a gente tá fazendo. Ou só me diz o que a gente acha que tá fazendo. Me diz o que somos. Ou só me diz o que achamos que somos. Me diz porque eu tô tão confusa em relação a isso, me diz também se tudo aquilo são sinais pra mim. Porque tu sabe que eu sou lenta pra entender as coisas, que eu fico confusa facilmente, tu sabe disso, e mesmo assim, um simples olhar teu me confunde da cabeça aos pés. Me diz o que eu sou pra você e me diz o que tu quer ser pra mim. Sério, o que a gente tá fazendo com a gente? E porque a gente ainda não fugiu disso? Disso que eu nem sei o que é. Tu sabe? Me diz. Me diz o que tu quer a gente vire, ou me diz se tu quer que continue assim. Só me diz. Talvez dê tempo de fugir. — Só me diz, no que a gente tá se tornando?

a-florando
❝
Sou Humano como o resto
pouco esperto
quando desperto
e há tanto em que não presto
desde de recém nascido
que me foi prometido
morte e enterro
e na minha velhice já nada é exacto
sou demasiado propenso ao erro
e tenho muitas vezes falta de tacto
vivo numa casa sem tecto
no fim de certos caminhos maus
e auto-denominei-me por caos
por ser tão mau arquitecto.
— Caos, O Velho Anarquitet
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
— Caetano Veloso
da minha depressão
dos meus medos
dos meu exageros.
de mim,
desde o início eu sabia, você desistiria, era só questão de horas e dias, você iria perceber, eu não valho uma gota de sangue que te arrancariam na luta que é me manter viva.

-pyramiddddd