sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

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Das pronúncias via olhares não dados eu prescrevi o meu universo inteiro. E guardei. Eu nunca te falei sobre a minha falta de jeito em lidar com o desassossego diário e sobre as minhas faltas perante a insistência pela existência. Eu sempre esclareci a minha vontade tamanha de fugir, mas acho que pessoa nenhuma enxergou o meu lado de quem só precisava se esconder do mundo por um segundo. E eu escondi tanto de mim por não saber lidar com tanto. Por não saber gritar, por não saber amar, por não saber o que fazer com os meus planos de conquistar a lua, por não achar lugar algum no mundo, por ter baseado os meus dias em destroços e tentar erguer um castelo rodeado por ilusões secas e tristes. Depois sentir tudo desabando outra vez e colocar a culpa na vida, quando na verdade, eu era o erro. Eu era o desequilíbrio, eu já era tamanha desordem antes da vida me impor a falta da luz. E o meu íntimo era um teatro que retratava simbolismos que alma nenhuma conseguia controlar. E fazer parte desse teatro era o que me restava: o olhar para dentro, esconder essa parte de mim. Viver dos meus silêncios. Ajustar os meus feitos à minha catástrofe. E esperar o dia em que a minha fuga se personificasse, ao tempo que meu desassossego se abrigou na bossa nova das curvas da tuas mãos. E não soltar elas mais porque o que de mim fez sentido, só faz em você e eu já não sei ser algo além desse pouco. Já disse Fernando Pessoa: eu nunca aprendi a existir.

-Arcádico
Estou começando a me convencer que não existo. Eu sou o espaço entre o que eu gostaria de ser e o que os outros fizeram de mim. Apenas deixe-me estar à vontade e sozinho no meu quarto.

Fernando Pessoa
hekootymsoul

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

💀follow me💀
-

os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade.

VOMITEM MINHA HIPOCRISIA

não sei bem o que dizer e não preciso de alguém para me lembrar o quão estúpido é começar qualquer texto assim.

meus hábitos são evidentemente inúteis, tenho um papo desequilibrado, carência em demasia, neurose em excesso e meu corpo é o cúmulo dos esboços divinos. (aos que se cansam logo de ler dramaturgia barata, peço que parem agora de ler essa porcaria).

sou bem distante do que se pode chamar de agradável mas faço tipos e tipos ou tento. posso ser o que mais lhe agrada em um piscar de olhos já que sequer tenho um eu. faço pessoas rirem, de se jogarem ao chão, mas não passo de uma humorista fajuta se afogando em sua própria aberração enquanto vocês gargalham.

não sei cativar a ninguém e quando o tento, logo desisto, cansada demais de interpretar milhares de papéis sem realmente ser.

adoro falar de meus problemas, chorar as pitangas, esvaziar a mente, mas odeio ter que contar com palavras amigas ou ouvidos alheios porque sei que tudo que falo é estritamente desnecessário, fútil, vil e ninguém precisa realmente ouvir.

eu costumo ser a que sabe a resposta mas não levanta a mão por medo, a que esconde suas próprias opiniões temendo gerar burburinhos, a que tem voz mas não canta, escreve mas não mostra, vê mas não faz questão de informar. a que se asfixia aos poucos por não conseguir escapar pelas bordas.

aquela que respira baixo ao seu lado, que espera as luzes se apagarem para soluçar e que faz questão de secar a própria fronha que encharcou.

mas a que faz sempre questão de ouvir a todos, de sorrir a todos para poupar de mim.

e eu não me admiro que minha vida seja essa grande merda, com um fluxo de idas grotesco e um histórico de vindas baixíssimo.

pois saibam que minhas prioridades saem por glândulas sudoríparas e como camponeses em êxodo, abandonam minha terra.

e eu os invejo.

queria eu sair de meu próprio eu, abandonar minha casa, esquecer minh’alma e libertar-me.

porque eu já cansei de contar as vezes que enjoei disso. e tudo isso é drama.

e eu ainda lhes pergunto da relevância desse mesmo texto, a questionar sua própria imensidão vazia já que dificilmente o leriam ao se lembrarem da fome na somália, dos mutilados de guerra no oriente médio e dos alto índices de soropositivos na áfrica do sul.

agora, quero que se enojem de meu egoísmo e me odeiem.
e que se puderem, vomitem minha hipocrisia.

-Faltou Amor

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

"Não há quem nunca possuiu uma angústia diária, impregnada nas costas, que sem palavras dizia que não iria partir, e de repente se foi, partiu, como quem abrisse espaço para um medroso voar. Dor que deixa nossa vida pesada e nos deixa sufocado. Seja na presença ou na ausência dela, todos tentam se convencer de que a tendência é melhorar, porque imaginar a solidão eterna é demasiadamente triste. Nos fazemos de fortes, peito de aço, pra não mostrar o coração de vidro, e apesar da bela peça de teatro encenada, ela foi construída sobre os destroços da nossa realidade. Usamos o papel e a caneta para aliviar o excesso da dor, ou trazer a que falta, através da nossa imaginação ou pensamento. Agarramento ao sofrimento que entra em contradição com a nossa simples vontade de dar um sorriso sincero. Nem tudo faz sentido, nosso fardo mal tem explicação, mas conseguimos sobreviver e guardar esperanças. Aguardamos os dias melhores com lágrimas nos olhos e uma rígida mão apertando nosso coração a cada segundo. Corremos e morremos em nossa busca insaciável pelo desconhecido, para ganhar em troca ao menos a sensação de estar minimamente vivo."

-Ofuscador
"Era uma estrela negra
mais tão negra
que nem refletia luz
E toda noite que via
suas companheiras a brilhar
inevitavelmente
começava a chorar."
— Felipe F.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Eu achei que ele tinha ligado o gás da cozinha porque eu senti um sufoco e uma vontade de pedir socorro. Mas a boca seca, a garganta dolorida, a saliva que não vinha nem com reza brava, nem com santo forte, por deus, não posso morrer com algumas palavras e um suposto gás que me consome e que te evapora. Eu não estou lúcida, eu surto perto da saída de emergência  e te levo para a parte mais quente dessa história, eu entro na cozinha chorando, os olhos ardendo ‘você ligou o gás?’ ‘que barulho é esse?’ ‘meu medo que é alto demais, me carrega. ’ Foi quando ele sem entender achou que fosse um desejo e me pegou no colo. E eu dormi sem dor.

Morrer é mais rápido do que pensei.

-Um Lugar Para Fugir

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

"Toda noite eu escuto um puta chiado no meu coração e eu sei que é o som da chacina de tudo que se atreveu a habitar no meu peito nesse dia. Toda manhã quando eu acordo, várias coisas novas nascem no meu ser. Eu sinto aqui dentro uma confusa reciclagem. Uma mistura de saudade do que eu fui ontem com uma curiosidade do que eu sou hoje se esfregando na angústia do que eu me tornarei amanhã."
- Teus Olhos Meus, por Caio Sóh.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

"Algumas coisas não parecem no lugar, está sempre escuro quando eu acordo e quando eu durmo, já nasceu o sol, e o mundo inteiro já se foi. Não sabem se vão voltar (eles não sabem)… Sobre todas as pessoas, que se acham especiais, não têm sequer um pouco de ardor. Se tenho que parar pra enxergar, e não morrer sem ter o que dizer. Aonde foi que deixamos a nossa coragem? Aonde foi?
Muito além do que possa parecer, aonde foi?"
- Renato Russo, Algumas Coisas.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali.

Charles Bukowski

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

❝É porque eu sou rio, sou mar, sou a gota d’água, o fundo do poço que não tem fim. Eu sou profundo e raso ao mesmo tempo e me encarno minimamente no cais do porto da escuridão infinita. Se eu mergulho, não volto e morro afogado porque sou a incerteza em corpo de (quase) gente. Se eu escorrego na poça rasa, caio e não me levanto mais, porque eu sou o cansaço personificado em corpo de animal (quase) racional. Eu sou tão particularmente complexo quanto um origami e estupidamente transparente como uma cantiga de roda. Eu sou o extremo de dois lados completamente opostos e me faço de louco quando minha lucidez se encontra no mais perfeito ápice. Eu não me entendo e não compreendo o que o meu nome tem a ver com a minha inteligência abatida pelo sol escaldante. Eu me olho no espelho às 6:37 da manhã e me enfio em minhas olheiras me perguntando qual o preço da escuridão. E eu grito que sou claro como o dia e que meu sol tem cheiro de solidão. E eu digo que minha lua se apagou e não quis se sobrepor mais a minha saudade. E eu brinquei e solucei e corri aos quatro cantos dessa cidade-de-meu-deus voando e me lançando aos ares de toda a minha volúpia, me embriagando com minha felicidade, alagando as melodias de minha agonia. E as flores que já estavam mortas e jogadas em minha calçada se desfizeram em pó e me encheram até a boca com toda sua beleza e saudade. Me encarno nos olhos de meu próprio espírito e busco a liberdade que estava engarrafada e era servida aos montes como um vinho refinado. Meu encarcere lento e repentino correu e se escondeu para nunca mais ser visto em lugar nenhum enquanto eu chorava de alegria, tentando apanhar minha liberdade como um caçador de borboletas busca sua presa bela e única. Porque a liberdade é só e dá prazer a quem a possui, mas matando aos poucos quem a busca. E eu, depois de tempos a encontrei e me livrei de minha sina horripilante e ri como se nunca mais existisse o riso e te ouvi chorando porque o peso de suas lágrimas me encheu de alegria. E assim continuou o dia, a noite, a tarde, a vida. Porque se eu rio… tu mares.
— Filipe Ramalheiro, Anarquismos.
A dor está aqui dentro, mas ninguém vê. Os monstros da minha loucura estão gritando na minha mente, mas ninguém ouve. A solidão desliza amargamente pela minha língua, mas ninguém os degusta. O caos me destrói e os resquícios do que me resta são pútridos, mas ninguém percebe. Meu corpo é oco, não tem alma, mas ninguém sente ao toca-ló. Os sentidos das pessoas que me cercam estão falhos, ou eu já não possuo mais sentindo alguém, só a imensidão da minha loucura tão particular.
— Verseto

domingo, 12 de janeiro de 2014

Uma árvore de veneno

Eu estava zangado com meu amigo
Eu contei minha ira – minha ira terminou
Eu estava zangado com meu inimigo
Eu não contei – minha ira cresceu

E eu reguei com lágrimas
Noite e dia com meus medos
E iluminei com sorrisos
E com manhas enganosas

E cresceu dia e noite
Ate que nasceu uma maçã brilhante
E meu inimigo contemplou-a a brilhar
E ele sabia que era minha

E de meu jardim roubou
Quando a noite escondeu o tronco
De manhã feliz eu vi
Meu inimigo estirado sob a árvore

(William Blake)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

2000 E SEMPRE

Passei a virada do ano embaixo do chuveiro, agachado, chorando, minúsculo, invisível. Adolescentismo babaca. Senti, pela primeira vez, a dor da dor. Blablabla estou sofrendo, blablabla estou completamente sozinho. Pela primeira vez, acho, senti o que isso significava de verdade. A pressão nos meus órgãos era quase insuportável. Achei que fosse morrer ou então descer pelo ralo. Sem nenhum remédio, sem nenhuma arma, só a tristeza de Renato Russo, quase cocaína. Achei que alguma coisa em mim fosse explodir e sujar a parede. Pensei em ligar pro hospital, mas era mais digno não encher o saco dos enfermeiros com esse tipo de bobagem, até porque ser eu, ser apenas eu, ser completamente eu, foi escolha minha. E uma escolha terrível, diga-se de passagem. Eu poderia ter pulado do escorregador quando mamãe avisou que era perigoso. Mas eu sempre gostei de precipícios maiores, porque nem sei a minha própria profundidade. Eu nem sequer estava no escorregador, aliás. Estava embaixo dele. Agachado, chorando, minúsculo, invisível. Mas claro, com a dignidade de não estar sem roupa. Estava, naquela fatídica virada de ano, embaixo do escorregador, tremendo de medo daquelas pessoas, daqueles sons, daqueles porcos sinistros com maçãs enfiadas na boca. O balanço na casa do meu tio fazia um barulho horrível quando as outras crianças se balançavam. Era realmente terrível. Pior do que os fogos de artifício. Mamãe veio me tirar pra participar da roda de oração e eu me debati no chão, gritei com ela, disse que tudo aquilo era besteira, até que ela quase entortou meu braço e acho que nunca vi os seus olhos tão tristes. Eu era um porre, essa que é a verdade. Até que meu tio, levemente bêbado, foi até lá e me agarrou pelo braço quando eu já tinha me largado de mamãe e planejava correr. Ele disse, enquanto eu permanecia mudo e estático, olhando bem no fundo dos meus olhos:

- Você faz parte dessa família? Me responda se você faz parte dessa família. Se você faz parte dessa família, vai participar dessa oração.
Meu tio sempre cuspia enquanto falava. Eu não sabia o que responder.
Talvez eu não fizesse parte daquela família. Talvez eu fosse só um projeto de gente que se achava adulto demais, talvez mais adulto que meu próprio tio. Eu era o projeto de gente, medroso, que detestava o ano novo porque detestara até então todos os anos de vida que passou. Os momentos mais felizes eu nunca tinha comemorado com ninguém. Eu nunca comemorei anos. Sempre comemorei segundos. Segundos novos. E eu não via sentido em me alegrar por causa de um ano novo. 365 dias era tempo demais. Tempo que incluía os momentos em que senti falta do meu pai, os momentos em que não suportava a carência excessiva da minha mãe, os momentos em que eu ficava agachado embaixo do escorregador com medo de toda aquela gente perceber que eu existia. Com medo do barulho do balanço. Com medo daquela música estranha e com vergonha do meu tio que, por ser sempre tão pacato e amoroso comigo, por sempre dizer que eu era seu sobrinho favorito, eu desconfiava que já não gostasse mais tanto de mim assim.
Aquelas pessoas, aquelas que comemoram o ano novo com muita cerveja e barulho desnecessário, deveriam ser muito tristes. Tristes sim, por se alegrarem tanto em ver um ano sendo jogado fora. Eu sei que, no fundo, ou melhor, na teoria, estavam agradecendo pelas felicidades e dando adeus aos infortúnios que passaram, mas pra mim, não passavam de babacas com o nome sujo na praça. Eu só não sabia disso naquela época. A inocência eram uma coisa que me deixava louco.
Meus segundos prediletos aconteceram
Quando mamãe fazia brigadeiro pra mim e sempre comíamos juntos.
Quando comprava um Mc Lanche Feliz todas às sextas-feiras quando ia ao centro da cidade.
Quando me parabenizava  por conjugar todos os verbos.
Quando tentou me colocar numa creche e eu esperneei tanto que ela teve que me levar de volta pra casa.
Quando viajávamos e ela me deixava comer um salgado com coca-cola no café da manhã.
Quando íamos à praia e ela imitava todos os bichos que eu pedia. Quando fazíamos bolos de areia e ela sempre deixava o meu ficar mais bonito.
Quando tomávamos banhos de piscina e eu ficava admirado com a capacidade dela de não afundar. Sim, mamãe não afundava. Por mais que mergulhasse. Era uma coisa engraçada apertar a barriga dela com toda a força do mundo e ver que mamãe era quase uma boia.
Quando quis imitá-la e boiamos juntos no mar, até que a correnteza nos arrastou e eu vi que não encostava mais o pé no chão. Mamãe se desesperou. As ondas naquele manhã estavam enormes. Nade, vá, nade, nade mais rápido, pegue impulso. Mamãe me empurrava com toda a força que podia e engolia tanta água que entre uma onda e outra eu via um rosto que mais parecia uma grande bola vermelha perdida. Eu também engoli bastante água. Até que veio uma onda gigantesca e nos empurrou mais pra areia. Mamã nadava apenas com as pernas. Com uma mão, fechava o nariz. Com a outra, tentava me salvar. Já em segurança, na areia, cansados, ofegantes, eu dei uma gargalhada enorme. O rosto dela estava engraçado. Ela tinha o olhar petrificado. Depois, contando a história para os amigos, mamãe disse: “Eu sabia que ia morrer. Eu tinha certeza que ia morrer. Mas eu só ia morrer quando ele se salvasse”. Ela cumpriu a promessa anos mais tarde.
(Mamãe, estou salvo. Mas não estou vivo.)
Ninguém nunca comemorou meus segundos favoritos. Talvez, eu gostasse dos fogos de artifício se eles realmente comemorassem algo mais significativo do que a porcaria de um número a mais no calendário. Aquilo tudo não fazia sentido, tio. Era só medo, angústia, pessoas estranhas, barulho. Pessoas tristes e estranhas. Pessoas com calcinhas amarelas e vestidos vermelhos. Pobres e sozinhas. Anos não mudam a gente.
Enfim. Dei uma mão para o meu tio, uma mão para a minha prima, fechei a roda e enquanto todos rezavam, eu permanecia com os olhos bem abertos e com uma ruga terrível na testa. Achava tudo aquilo um saco. E sei que mamãe lamentava tudo aquilo. Lamentava por eu ser daquela maneira. É por isso que, repito, não me senti no direito de ligar para os enfermeiros esta noite porque a escolha de ser eu foi completamente minha.
Naquela noite, coloquei um lençol na cabeça, fingi que dormia e escutei tudo o que minha mãe conversava com titio.
"Eu não sei, eu realmente não sei o que foi que deu nele essa noite. To tão chateada… Tão chateada mesmo. Meu resto do ano vai ser horrível, ele não tem consideração comigo. Parece um cachorro raivoso. Ele tava distante, tava frio, onde foi que eu errei com ele? Não quis ficar perto da família… Ele não gosta da família dele? Você acha que ele não gosta? E eu sei que ele tá ouvindo isso. Tá fingindo que tá dormindo, mas tá ouvindo. Ele sabe o quanto me deixa triste sendo grosseiro comigo, ele sabe o quanto eu to triste com ele". Titio disse que era coisa da idade. E que eu ia melhorar com o tempo. Disse também que eu estava dormindo, era impossível estar acordado e tão imóvel assim.
Tio, passei a minha vida inteira escutando o que as pessoas diziam que eu era. Imóvel. Quieto. Não era difícil ser a decepção da minha mãe. E saber disso.
Nunca fui de pedir desculpas. Mas naquela noite, em especial, queria ter pedido desculpas. Estraguei o ano novo dela. Sempre estragava.
Mas eu só queria que também me entendessem: eu não estava comemorando nada. Eu não queria comemorar nada. Eu lamento não ter dito o quanto eu fiquei feliz por comer as coxinhas de frango que estavam na mesa. Eu lamento não ter pedido socorro ao invés de gritar com você, mãe. Mas eu estava assustado. Eu estava, definitivamente, assustado. Com raiva. Do mundo. Desse mundo babaca do qual eu faço parte. Desculpe, estava crescendo. E crescer, crescer assim, sendo eu, me dá sempre uma vontade incontrolável de gritar com todos aqueles que me amam e dizer: “cês tão ficando doidos? Me deixem em paz. Me deixem em paz, mas não me deixem sozinho”.
Anos depois, quando [ironia]comemorava[/ironia] o ano novo junto dos meus avós, sendo chato outra vez, me despedi dos meus amigos quando deu meia-noite e subi para o apartamento sem dizer uma palavra. Vovó apareceu extremamente doída. Passou janeiro inteiro sem falar comigo direito. Era mais que meia-noite, todo mundo me procurava, e eu estava ali. Sozinho. De pijama. No décimo quinto sono.
Naquela altura do campeonato, eu já tinha ouvido falar de um negócio chamado hipocrisia.
Escapei da oração. Escapei dos abraços hipócritas. Mas magoei minha família. Eu lamento, porque sei que família é um negócio sublime, mas eu sou egoísta, egocêntrico, narcisista e covarde. E eu, eu, sou meu sangue, minha carne, minha vida, minhas pernas, meu ser.
Eu gosto de me satisfazer. E por causa disso, exatamente por causa disso, não desejei um próspero ano novo pra ninguém. Porque a única coisa que eu queria era que aquela música estúpida parasse. E só.
Eu sei, vovó, que a senhora acha que eu não sou grato por tudo o que já fez por mim. Eu nunca disse que sou grato. Na verdade, eu sou. Mas não sei dizer. E sei que a se a senhora for embora também, eu vou sentir sua falta e vou me arrepender por todas as vezes em que te neguei um abraço, do mesmo modo em que até hoje sinto a sobrecarga de carinho que neguei à minha mãe furando a minha carne e formando um vazio gigantesco, maior até do que a própria saudade.
Agradeço e comemoro, todos os dias, pelas vezes em que você foi na escola falar com a minha professora e dizer que eu não ia apresentar porcaria de trabalho nenhum, porque eu tinha vergonha.
O alívio que eu sentia cada vez que não precisava falar em público. Falar com ninguém.
Agradeço e comemoro, sempre, pelas vezes em que você me deixou levar sanduíche no dia da fruta, e ia lá no colégio falar novamente com a professora e explicar que eu comia fruta nenhuma. A professora sempre explicava que alimentação saudável era importante e você dizia: “Se meu neto não quer comer maça, ele não vai comer a droga da maçã”.
Eu sempre gostei quando você escrevia bilhetes dizendo que eu não ia participar do banho de piscina porque não gostava de interagir com os outros alunos.
Você me protegeu. O máximo que pôde.
Eu estou vivo, vovó. Mas não estou seguro.
Meus segundos favoritos não existem mais. Ou melhor, não penso mais neles. Não agora.
Todo o meu corpo está doendo. Sinto uma solidão enorme.
É o primeiro ano novo que passo completamente sozinho. A música estúpida está cada vez mais distante. Não tem televisão alguma por aqui. Só os fogos, mas acho que meus ouvidos enrugaram junto com meus dedos.
As mensagens que eu gostaria de receber, não recebi.
Não tem balanço, não tem escorregador, não tem gente de branco, não tem calcinha amarela, não tem o meu tio levemente alcoolizado, não tem amigo, não tem amor, não tem saudade.
Minha avó me chamou pra ver os fogos. Subi, gritei com ela, desci. Ela já não sabe mais o que fazer comigo.
E, pela primeira vez, sinto a dor da minha dor. Não tem mais canto pra que eu fuja. Não tem mais colo que sirva. Não tem mais ninguém. Não tem mais ninguém que queira me dar um abraço pra que eu possa dizer: “ano novo é um saco, eu não vou abraçar ninguém”, e voltar pro meu quarto, morto de satisfeito por essa droga de ano já ter acabado. Não tem mais. Não tem mais nada. Sinto a dor da minha tristeza. Meus órgãos estão se afogando.
Sinto o peso de ter escolhido ser eu. E sinto muito, eu juro que sinto muito.
Feliz 2014.
(Cinzentos)

COM SINGELAS PALAVRAS EXALO APENAS O PARADOXO DA PERFEIÇÃO

Através de anos coexistindo em uma realidade onde celebram a estupidez, aprendi o quão somos infelizes em sambar no carnaval. Que toda essa alegria escrachada é apenas uma simbólica lágrima de apatia e descaso pelo universo caótico onde se esconde a nação. Assim feito, vamos brindar com toda força a hipocrisia. Honremos a estupidez dos poetas. Comemorarmos nossa corja de covardes, que sussurram atos insanos de coragem. Festejarmos toda essa melancolia desgraçada que chamam de solidão. Solenizar o nosso passado de absurdos gloriosos. No final celebraremos a justiça e a desunião. Até que o acaso faça um paradoxo perfeito da perfeição.

a superficialidade do mundo me assusta.

eu não sei amar, não sei esquecer e não sei guardar as palavras em um canto qualquer. não entendo as pessoas que viram a cara pros problemas, pras ideologias escritas em muros, pra poesia seca que a gente não consegue salvar ao fim de cada dia. eu guardo metáforas nos fios do meu cabelo e tenho sonhos que poderiam preencher a solidão de cada um que já desistiu de ser alguma coisa. e eu juro que eu me agarro às esses pequenos sorrisos diários mesmo quando o mundo me fecha as portas porque eu simplesmente não sei lidar com tanto.

e as pessoas fecham os livros, esquecem as figuras de linguagem, amam somente o corpo. e alma nenhuma suporta tanto amor que não é. tanto amor por tanto material e nem sequer conseguem sentir o verdadeiro significado que o amor nos impõe: ser eterno em um segundo. amar por um segundo, sim, eles sabem fazer isso. mas amar de forma inacabada não se vê. nunca se viu.

a aceitação. o não argumentar. que mundo é esse onde ninguém sequer tenta mover uma peça do jogo? eu sou mais do que nunca agora o movimento e as pessoas só conseguem me mostrar a paralisação total de suas almas.

e aí eu fujo porque o que o mundo me impõe é : nenhum político presta, então é melhor ficar do jeito que tá. um hospital foi finalmente criado naquela cidade, isso é motivo de festa! eu amo você hoje, viu, amanhã eu vou amar a primeira pessoa que falar oi comigo. essa pessoa é demais, você tem que ver a casa dela na praia. pra que se preocupar com as pessoas que sentem fome se lá na televisão tá rolando uma briga entre aquelas atrizes que merece toda a atenção. pra que ler poesia, procurar um sentimento, sentir um pingo de curiosidade por qualquer coisa se o meu trabalho me espera?

fujo pra tentar salvar ainda um pedaço de alma que eu guardo. fujo porque eu não sei lidar com tamanha superficialidade. e aí me escondo. deixo de ser.
[evaporar]

SOBRE A SUA ALMA QUE NUNCA SOUBE TRANSBORDAR

você olha pro céu
mas não consegue entender
a imensidão do que presencia
você diz que é amor
mas não sente nada quando esta junto
o seu coração parece oco
e quando eu falo sobre isso
você ri e diz que eu sou doida
mas a verdade meu bem
é que uma alma que vive transbordando
reconhece a outra.
e você não transborda.

(pingos de solidão)
❝ Tenho vertigens quando estou em lugares enormes e pequenos. Como o oceano ou a minha sala de estar.
Nunca sei onde meus olhos param, começam, morrem.
Nada é do mesmo tamanho que eu.
— Fragmentos no escuro, no ar.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Tenho tudo
que tem
aquele
que sabe
que ter
é ter
o que contar,
é ter
do que lembrar,
é ter
o que ninguém,
nem mesmo o éter, 
pode apagar.

(Ricardo Coiro)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

“Que possam se doer em paz os que sofrem: por angústias existenciais, desamor ou qualquer coisa que pareça banal. Que possam, simplesmente, silenciar e não sorrir naquele dia. Que possam entrar em contato profundo com o trecho machucado de sua vida, com a garganta magoada pelo choro engolido, com a vontade da desistência […]. Que possam se doer em paz enquanto seres sentimentais: ao menos não fizeram uso de anestésicos emocionais.”

convergido
Era terça
mas agora já é quarta
e eu chuto na lata
quem sabe dizer
quantas vezes rodei a maçaneta
só pra saber se,
por um acaso,
o destino colocou alguém na minha porta.

gorjeios