terça-feira, 23 de abril de 2013

“Não importa quantos segredos foram revelados. Ninguém neste mundo sabe mais sobre você do que você mesmo. O que acontece lá fora nem importa tanto assim. A história muda cada vez que é contada, mas não quando é vivida. Lembre-se, as folhas que faltam ainda estão em branco, e só você tem a caneta que realmente funciona.”
— Depois dos Quinze

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Ninguém

Sapato baixo, calça larga e cabelo preso. Esquentou e seus ombros tensos agradecem. Que cara bonita é essa? Já logo no elevador. Ah, devo ter dormido bem. Bom dia, bom dia. Olha, você está muito bonita hoje. Um fala, outro concorda. E pelos corredores, sorrisos dão continuidade aos elogios. O que é?Que segredo ela guarda? Que novidade é essa? Na cozinha perguntam: novo amor? No estacionamento perguntam: voltou com alguém? No restaurante, na hora do almoço: é alguém novo? Cruza com um namorado antigo "nossa, você tá muito... é o quê? Sexo? A noite toda? Conta, vai, eu agüento ouvir". Contar o quê? No espelho, enquanto escova os dentes, fecha os olhos e sabe pra si o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém.Nada. Nem um restinho de nada. Nem de tudo que acabou e nem de nada que possa começar. Nada. Pouco importa qualquer outra vida do mundo. Não é nem pouco, é nada mesmo. Um dia inteiro para achar gostosas coisas bobas como um pacote de pipoca doce, um tênis pink ou a hora do banho quente com músicas recém baixadas e o tapetinho vermelho. Um dia inteiro sem escravidão. O celular, o e-mail, o telefone de casa, o ar, o interfone, a rua. São o que são e não carrascos que nada dizem e nada trazem. Um coração calmo, se ocupando de mandar sangue para as horas felizes de trabalho, estudo, yoga, massagem, dormir, bobeiras, pilates, comer, rir, cabelo, filmes, comprar, trabalhar mais, ler, amigos . É isso. Uma agenda enorme que a ocupa de ser ela e não sobra uma linha de dia pra lamentar existências alheias. Linda, ela segue.Linda e feliz como nunca. O segredo do espelho, escovando os dentes, sozinha, aperta os olhos, segura a alma um pouco sem respirar. Segura a pasta pensando que é um pouco de alma consistente na boca. Não cospe, suporte. Ela pode finalmente suportar seu peso e não dividir isso nem com o ventinho que entra pela janela. Nem com o ralo que a espera boquiaberto. A sensação é a da manhã seguinte que o papai Noel deixava os presentes: não é mentira, é só um jeito de contar a verdade com algum encantamento

-Tati Bernardi

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Somos aquela censura na tarja preta de um terror. Proibido para menores de alma. Eu vou rasgar teus dedos, um por um, para que não deixe digitais em nenhuma dor que não queira possuir. E quero que deixe meus olhos esmagados no chão para que eu sinta, verdadeiramente, o que é ver além da minha carcaça. Ser um esqueleto coberto de carne eu já passei minha vida inteira sendo. Quero que o nosso sentimento beba todo aquele formol e seja um embrulho de morte, mas eterno. Um embolado visceral que una nossos pesadelos e demônios dentro de uma gaveta. Assim, meu bem, como sempre sonhamos. Arrancar no dente as tuas unhas, os teus cabelos, lamber a sua tortura. E para o tiro no crânio, aspirina. Para o cérebro esmiuçado no chão, tempo. É o que dizem os noticiários. Mata um, passa o tempo, mata outro. Inveja, suponho, sentem aqueles que não podem ver as tuas lindas rugas na testa enquanto me matas todos os malditos dias, arrancando a minha roupa e a minha pele, a minha vergonha e o meu orgulho. Matando-me todos os dias, na espingarda, com um arrombo no peito que você já tem a chave. Um amontoado de veias, um corpo desossado. Somos um cadáver só, na lata do lixo. Somos homem-bomba nessa visão turva e cheia do prazer de te ver padecendo por mim como num espetáculo, cheio de cestos, Cleópatras e cobras. O teu suicídio, como não devia deixar de ser, eu aplaudi de pé, quase sofrendo. Eu sinto as noites que formamos a forca juntos, que alisamos o cano do revólver como quem ama a própria depressão. Somos tristes, e já é possível ouvir a sirene. Não sei da delegacia, não sei do hospício. Só sei que é o barulho que desassossega o nosso sublime ato de crime passional. Devora o meu coração com lágrima e pimenta antes que a polícia chegue. Hoje é lua cheia, amor, e eu calculei a quantidade de veneno por litro de sangue só por você.

Cinzentos - Todo mundo é psicopata.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Eu teria amado você

Eu teria amado você. Das seis da manhã até a meia noite. E durante meu sono, nos sonhos que você nunca deixou de aparecer. Eu teria amado você. Com suas olheiras e seu mau-humor matinal. As palavras grosseiras, a cara amarrada, os pedidos de silêncio. Nada disso teria importado. Ainda assim, eu teria amado você. De segunda a sexta-feira. Nos sábados de balada. E até nos domingos infernais. Eu teria amado você assistindo aos seus jogos de futebol ou até vendo Faustão.
Eu teria amado você quando você dissesse que ainda não me amava. Ou quando tivesse medo de se jogar de cabeça em uma relação. Eu teria amado você quando fugisse de mim, sem saber se era mesmo isso que queria para sua vida. E também quando voltasse, por saber que uma parte de mim já tinha ficado aí dentro. Eu teria amado você cada vez que deitasse ao meu lado, me abraçasse ou ficasse em silêncio sem saber o que dizer.
Eu teria amado você quando você olhasse para o lado. Quando visse uma mulher bonita passando e não conseguisse disfarçar. Eu teria amado você até nas nossas brigas. No seu jeito imaturo de levar um namoro. Nas verdades que jogaria na minha cara sem ter medo de quebrar meu coração. Eu te perdoaria. Porque eu teria amado você até quando você me magoasse.
Eu teria amado você com a sua cara amarrada. Com suas frases secas. E suas respostas monossilábicas. Eu teria amado você quando você ainda nem soubesse que o que eu sentia era amor. Eu teria amado você com suas falhas, seus erros, seus medos e seus traumas. Eu teria amado você inteiro, sem que você nem tivesse pedido.
Bastava que você tivesse escolhido ficar, e eu teria amado você. E se você quisesse, eu poderia ter te amado para sempre. Se você não tivesse ido, eu poderia ter amado você. E teria deixado de fingir que, em silêncio, mesmo sem você nunca ter ficado, eu amei você sempre. E ainda te amo.

-Karine Rosa
Comecei a admirar as estrelas. E conta-las como se cada uma representasse uma dor minha. O brilho que engana os olhos de quem olhava de longe encobria uma angustia. Os pontinhos que iluminam o céu eram solitários. Eram vazias. Escondiam-se durante o dia. E a noite choravam as luzes que refletem em meus olhos toda vez. De longe tão frágeis e puras. Ao se aproximar um pouco, percebe-se escuro que as cercam. E nesse abismo sem fim, me encaixo e adormeço. Sou uma estrela escura.

-Maretiza